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Infraestrutura crítica no SPB: requisitos de segurança e soberania em operações de pagamentos
A imagem mostra moedas de um real amontoadas. Atrás está escrito SPB, sistema de pagamentos brasileiro.

A operação do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB) é um componente central da infraestrutura financeira do país e exige níveis elevados de confiabilidade e segurança. Com liquidações em tempo real e serviços que operam de forma contínua, cresce a necessidade de arquiteturas resilientes e auditáveis capazes de sustentar o volume e a criticidade das transações.

Nesse contexto, governança, visibilidade e controle deixam de ser diferenciais e passam a ser condições obrigatórias essenciais para instituições reguladas. À medida que o setor adota diferentes estratégias de infraestrutura, incluindo modelos on premises, single cloud ou híbridos, a soberania digital sobre dados, identidades, chaves e jurisdição se torna ainda mais relevante.

A segurança precisa estar integrada à arquitetura e aos processos operacionais, garantindo continuidade e integridade em todo o sistema de pagamentos.

Neste artigo, você vai entender por que a infraestrutura crítica do sistema de pagamentos exige padrões elevados de segurança e quais são os elementos essenciais de soberania para operar em ambientes híbridos. Leia a seguir.

Infraestrutura crítica no SPB: requisitos de segurança e soberania em operações de pagamentos

A transformação digital do setor financeiro brasileiro elevou a velocidade, o volume e a criticidade das operações de pagamento. Hoje, infraestruturas de liquidação em tempo real, como o SPI, e sistemas de liquidação interbancária de alto valor, como o STR, compõem diferentes partes da espinha dorsal da economia. Nesse cenário, a infraestrutura que sustenta essas transações precisa operar com padrões de confiabilidade e segurança compatíveis com seu nível de criticidade.

E é nesse contexto que se insere o Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), cuja relevância estratégica vai muito além do processamento técnico de operações. Ele é o ponto de convergência de centenas de instituições, políticas públicas, mecanismos regulatórios e fluxos financeiros que mantêm o funcionamento do país. Por isso, qualquer discussão sobre arquitetura, governança ou segurança precisa começar pelo entendimento do SPB como uma infraestrutura crítica.

Por que operar no SPB exige padrões acima do modelo corporativo convencional

O Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB) sustenta a movimentação financeira do país e viabiliza desde liquidações de alto valor até pagamentos instantâneos para consumidores e empresas. Nesse contexto, falhas podem causar impacto significativo, embora a infraestrutura do Bacen conte com mecanismos de contingência e salvaguardas desenhadas para reduzir efeitos sistêmicos. Operar o SPB como infraestrutura crítica significa adotar padrões de resiliência, segurança e governança que ultrapassam as práticas corporativas tradicionais, justamente porque qualquer desvio pode gerar impactos operacionais relevantes ou afetar fluxos críticos de liquidação.

A digitalização ampliou o alcance… e também a superfície de risco

A evolução tecnológica e a digitalização acelerada dos serviços financeiros ampliaram a forma como as instituições operam e se conectam, mas também expandiram a superfície de risco. Integrações em tempo real, interfaces abertas, identidades distribuídas e automação de ponta a ponta aumentaram o alcance das operações, porém trouxeram novos vetores de exposição. À medida que cresce a importância de dependências técnicas como rede, gestão de identidades, chaves criptográficas, observabilidade e cadeia de suprimentos, sua criticidade se equipara à dos próprios aplicativos de missão crítica. Em especial, destaca-se a necessidade de um rigoroso processo na utilização de identidades privilegiadas.

Em ambientes regulados, qualquer falha nesses pontos tende a gerar riscos operacionais e regulatórios ao mesmo tempo, o que reforça a necessidade de uma arquitetura que priorize continuidade, auditabilidade e separação de funções.

A nuvem é parte do contexto. E o modelo híbrido amplia seus benefícios

A presença da cloud no setor financeiro evoluiu rapidamente e, para grande parte das instituições, já se consolidou como componente estrutural da arquitetura tecnológica. A operação moderna envolve data centers próprios combinados com várias nuvens públicas e serviços especializados, formando um ecossistema mais flexível, escalável e preparado para alta demanda. Esse modelo amplia capacidade, reduz tempo de provisionamento e acelera a modernização, mas impõe um custo operacional claro. A variedade de plataformas intensifica a heterogeneidade de controles, introduz diferenças de responsabilidade e gera lacunas de visibilidade que pressionam governança e segurança. É isso que torna o híbrido mais exigente: ele requer coordenação rigorosa entre ambientes, coerência de políticas e supervisão contínua. Para a maioria das instituições financeiras, a questão já não é mais se devem usar nuvem, mas como extrair o máximo valor dela, garantindo segurança, governança coerente e soberania operacional sobre dados e identidades.

Eficiência exige disciplina operacional

A operação em ambiente híbrido realmente aumenta a eficiência, mas essa eficiência só é sustentável quando existe controle. Sem governança, visibilidade e segurança integradas, os ganhos do modelo híbrido rapidamente se convertem em exposição. Esse fenômeno ocorre pelas seguintes razões:

    • Governança: exige definição precisa de políticas, papéis e responsabilidades, com separação de funções e aplicação consistente de políticas e controles preventivos por meio de automação entre ambientes locais e várias nuvens. Quando isso falha, surgem derivas de configuração, ambientes paralelos não autorizados e decisões difíceis de auditar, fenômenos que se relacionam tanto à falta de governança quanto ao que tradicionalmente se entende como shadow IT.

    • Visibilidade: depende da consolidação de telemetria que reúna logs, métricas, rastros e eventos de segurança em um fluxo integrado de análise. Sem uma observação completa, de ponta a ponta, a detecção de anomalias se torna lenta, a investigação se fragmenta e a resposta perde eficácia, o que é crítico em operações reguladas.

    • Segurança: se apoia em validações contínuas de acesso e comportamento, garantindo que cada interação seja autenticada e autorizada com base no contexto. Em ambientes sensíveis como o SPB, a segurança não pode ser tratada como camada adicional. Ela precisa estar incorporada ao desenho da arquitetura e aos processos que sustentam o ciclo de vida operacional, tanto na construção quanto na operação das soluções.

Em síntese, a eficiência do híbrido só se mantém quando esses três vetores atuam em conjunto. Sem controle rigoroso, o modelo não apenas perde valor, mas introduz riscos que podem comprometer toda a operação.

Soberania é definida por controle, não apenas por geografia

A soberania no contexto do sistema de pagamentos precisa ser entendida como a capacidade real da instituição de controlar seus ativos críticos, e não apenas definir onde eles estão armazenados. A localização é apenas o primeiro passo. Em geral, soberania envolve uma combinação de fatores como jurisdição, controle operacional sobre a infraestrutura, gestão de identidades e chaves, auditoria e transparência sobre a cadeia tecnológica.

    • Jurisdição e alcance legal: exige clareza sobre quais legislações podem incidir sobre dados, chaves, logs e backups, especialmente em cenários multi-região e multi-cloud. Sem essa visibilidade, a instituição pode ficar sujeita a interpretações legais que limitam sua autonomia e podem interferir no controle efetivo dos seus ativos críticos.

    • Controle de identidades e chaves: envolve domínio sobre modelos de controle de acesso e mecanismos de avaliação contínua de segurança em ambientes de nuvem. Inclui também a gestão e a guarda de chaves criptográficas de forma segregada e auditável, garantindo que somente atores autorizados possam acessar informações sensíveis. Esses controles podem ser implementados em diferentes modelos, inclusive com recursos oferecidos pelo provedor, desde que alinhados a políticas claras de governança e mecanismos consistentes de auditoria.

    • Auditoria e trilhas imutáveis: são fundamentais para demonstrar integridade, reconciliação transacional e aderência a requisitos regulatórios. A instituição precisa manter evidências completas e consistentes entre ambientes, com capacidade de comprovar cada ação executada em cargas de trabalho, dados e componentes de plataforma.

    • Cadeia de suprimentos: demanda transparência e controle sobre a cadeia de fornecimento de software (software supply chain), garantindo visibilidade sobre a origem, integridade e rastreabilidade dos artefatos utilizados na operação.

Em resumo, soberania significa ter controle efetivo sobre dados, identidades, chaves, processos e cadeias técnicas, assegurando que a autoridade final permaneça com a própria instituição.

Security by design deixou de ser apenas um princípio e se tornou prática essencial da arquitetura

Em ambientes que operam no sistema de pagamentos, a segurança não pode ser tratada como etapa posterior ou como camada adicionada sobre a arquitetura existente. Para atender ao nível de criticidade do SPB, a segurança precisa ser elemento estrutural, integrado desde a concepção das soluções até sua operação diária. A prática de security by design se torna, portanto, um requisito operacional, sustentado por capacidades técnicas distribuídas em vários componentes:

    • Arquitetura por princípios: inclui aplicação rigorosa de least privilege, separação de deveres, definição clara de limites de confiança entre domínios como rede, dados e identidades, além de defesa em profundidade com controles compensatórios sobrepostos.

    • Controles como código (práticas de “as code”): quando infraestrutura, políticas e elementos de segurança são tratados como código, com processos automatizados de validação que evitam deriva de configuração e garantem que ambientes permaneçam aderentes aos padrões definidos.

    • Criptografia e guarda de chaves: requer criptografia em repouso e em trânsito apoiada por gestão de chaves segregada. Isso inclui o uso de KMS e HSM com políticas de acesso segregadas, rotação automatizada e separação entre ambientes de desenvolvimento, teste e produção.

    • Observabilidade e resposta: depende de visibilidade consolidada de eventos e métricas, integrando informações de aplicações, infraestrutura, rede e acessos. Inclui ainda processos estruturados de resposta e testes regulares de prontidão, garantindo capacidade de detecção e resposta eficientes a incidentes, inclusive em cenários de comprometimento de identidade ou de chaves.

    • Continuidade e resiliência: exigem arquiteturas distribuídas entre zonas de disponibilidade e, quando apropriado, entre regiões distintas, testes regulares de recuperação com critérios claros de tempo e perda aceitável, além de planos de contingência que assegurem transição controlada entre ambientes locais e em nuvem.

O resultado é um ecossistema sob controle, no qual a segurança é nativa da arquitetura e sustentada por automação, visibilidade e evidências auditáveis de conformidade.

O híbrido já é uma realidade no setor, e governá-lo é o que diferencia maturidade de risco

A operação do sistema de pagamentos em ambientes híbridos já faz parte da realidade do setor, mas o que diferencia instituições maduras é a capacidade de governar esse conjunto com segurança, coerência arquitetural e visibilidade contínua. O desafio não está apenas em adotar várias plataformas, mas em manter regras, identidades, chaves e políticas funcionando de forma integrada entre data centers locais e serviços em nuvem.

Governança, observabilidade e mecanismos de proteção precisam atuar de maneira coordenada: regras consistentes entre ambientes, telemetria abrangente para detecção rápida de anomalias e decisões arquiteturais alinhadas ao conceito de security by design. Em um ecossistema regulado, maturidade significa operar o híbrido com soberania, resiliência comprovada e processos que permanecem íntegros mesmo sob pressão.

 

Renan Barcelos
Superintendente de Segurança Cibernética ou CISO
RTM

 


No próximo Tech Talk da RTM, vamos aprofundar como essas exigências se traduzem em práticas concretas de governança multicloud, telemetria unificada, gestão de identidades e chaves e modelos de resiliência adequados às operações críticas do sistema de pagamentos. Acompanhe a discussão.

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