Compliance eficaz não é sobre ter política. É sobre produzir evidências, com dados, de que os controles funcionam. Bancos, gestoras, distribuidoras, administradoras, fintechs e demais instituições reguladas do mercado financeiro e de capitais vivem hoje sob essa régua: reguladores e autorreguladores já não aceitam papel, querem evidência de efetividade. PLDFTP e integridade de mercado convergem para a mesma pergunta: como uma instituição sabe, de fato, que seus controles funcionam?
A base: controles, políticas e atividades
O Modelo das Três Linhas ajuda a organizar essas responsabilidades. A primeira linha compreende a gestão e as áreas de negócio, responsáveis por gerir os riscos associados às suas atividades. A segunda reúne funções que apoiam, monitoram e desafiam a gestão em temas como riscos e compliance. A terceira linha é exercida pela auditoria interna, que fornece avaliação independente e objetiva sobre governança, gestão de riscos e controles. Essa estrutura depende de um ambiente de controle apoiado pela alta administração, de responsabilidades claramente definidas, de apetite de risco estabelecido de práticas consistentes de gestão de pessoas – porque admissão, treinamento, avaliação e incentivos também revelam o que a instituição tolera.
Sobre essa base, três políticas ajudam a conhecer a origem do risco:
- KYC (Conheça seu Cliente): identificação, qualificação, classificação de risco e compreensão do seu modus operandi – como o cliente movimenta recursos, quais produtos utiliza, com que frequência, em que volume e com quais contrapartes. É um processo vivo, atualizado à medida que o comportamento muda.
- KYE (Conheça seu Funcionário): diligências aplicáveis a colaboradores, considerando integridade, conflitos de interesses, funções exercidas e riscos associados à posição.
- KYP (Conheça seu Terceiro): a mesma régua para terceiros — governança, controles internos e exposição à riscos de PLDFTP, fraude e outros riscos relevantes.
Prevenção não é trabalho só do Compliance. Cadastro, atendimento, comercial, mesa de negociação e liquidação financeira participam da gestão dos riscos no dia a dia. Compliance estrutura critérios, monitora, orienta e desafia essa atuação, observadas as alçadas de decisão definidas pela instituição.
O papel do monitoramento contínuo
Monitoramento transforma essa fotografia inicial em filme: acompanha se o comportamento do cliente segue compatível com o seu perfil, na frequência compatível com o risco. Sinais isolados dizem pouco. Juntos, formam indícios: aumento de volume sem motivo aparente, operações fragmentadas, movimentação incompatível com o patrimônio declarado, concentração de resultado entre partes vinculadas ou mudança brusca de modalidade operacional. Nenhum desses sinais, sozinho, representa um indício. É o contexto, a combinação e a evolução desses sinais que importam — e é isso que o monitoramento contínuo permite capturar.
A prevenção à fraude pede a mesma disciplina, com outro conjunto de sinais: dado cadastral alterado sem motivo, dispositivo ou geolocalização de acesso incompatível com o histórico do cliente, ou tentativa de operação logo após troca de contato ou de conta bancária cadastrada. Os sinais mudam; a lógica permanece a mesma: acompanhar continuamente alterações de comportamento e contexto.
O mesmo vale para fatores externos que alteram a exposição ao risco: jurisdições e contrapartes. O GAFI atualiza periodicamente suas listas de risco; em julho de 2026, o Banco Central publicou a Instrução Normativa BCB nº 761, reforçando aplicação a abordagem baseada em risco da Circular nº 3.978/2020 às relações com essas jurisdições, inclusive nas relações com correspondentes e terceiros. A CVM reforçou, na sequência, que isso já integra a Resolução CVM nº 50. Não basta, portanto, manter atualizado o cadastro do cliente: mudanças no risco associado a jurisdições, contrapartes e demais elementos da relação também precisam alimentar continuamente a avaliação.
Market Surveillance segue na mesma lógica: a supervisão de ofertas e operações para identificar indícios de possíveis práticas não equitativas, como concentração de ordens antes de fato relevante, ou negociações capazes de influenciar artificialmente o preço no fechamento do pregão. Ler PLDFTP e Market Surveillance de forma integrada amplia a compreensão sobre o comportamento do cliente, porque ambos contribuem para a proteção da integridade do mercado. E o ciclo só fecha quando o alerta vira decisão: tratar falsos positivos, fundamentar reportes, registrar a decisão e revisar critérios sempre que necessário.
Tecnologia como aliada estratégica
Sustentar esse ciclo – da classificação inicial à leitura contínua de comportamento, jurisdições e contrapartes — não cabe mais em planilhas ou controles manuais. É aqui que a tecnologia vira aliada estratégica do Compliance: não para substituir o julgamento técnico, mas para ampliar sua capacidade de análise, registro e acompanhamento.
Plataformas como a FIRA apoiam diferentes etapas dessa jornada, reunindo monitoramento transacional, background check, PLDFTP, prevenção à fraude e Market Surveillance. O ganho está na capacidade de processar e correlacionar grande volume de dados, identificar padrões, gerar alertas mais efetivos e manter decisões registradas e auditáveis. A arquitetura por trás faz diferença — em Trade Surveillance, essa arquitetura é especialmente relevante.
Identificar esses padrões não é só captar operações realizadas: é correlacionar, em tempo hábil, informações sobre book de ofertas, negócios executados, fatos relevantes e outros dados para identificar indícios que mereçam análise – por exemplo, concentração de ordens antes da divulgação de um fato relevante ou comportamentos capazes de influenciar artificialmente a formação de preços. Isso exige capacidade de processamento e correlação que controles manuais ou regra isoladas não conseguem sustentar em escala.
A FIRA usa, para isso, a infraestrutura tecnológica da RTM e do Databricks como camada de dados e IA: esta infraestrutura combina capacidade de processamento, arquitetura de dados e recursos analíticos para tratar grandes volumes transacionais, na velocidade que o mercado exige, e com modelos dinâmicos que aprendem padrões de comportamento — não só regra fixa de limiar. O objetivo é ter análises mais sofisticadas, reduzindo falsos positivos e permitindo que o analista concentre atenção nos alertas mais relevantes.
Processar e correlacionar nessa escala resolve metade do problema. A outra metade é interpretar — antes do alerta, não depois dele. Muita plataforma de RegTech entrega dado organizado e um pacote de regras genérico, que não muda com a instituição nem acompanha a norma. A diferença da FIRA é ter, conhecimento de negócios, estatística e mineração de dados: profissionais que leem cada mudança regulatória — novas resoluções e instruções normativas, atualização de lista do GAFI, novos requisitos de reporte — analisados em conjunto com os dados transacionais e cadastrais da própria instituição. É esse cruzamento — um time dedicado interpretando dados e normas juntos, não só script rodando — que transforma leitura em controles, limiares e lógicas de alerta calibrados para o cliente da instituição. É essa combinação entre conhecimento regulatório, leitura dos dados e tecnologia que permite que o monitoramento evolua à medida que a norma, os riscos e o comportamento do cliente mudam. Software, sozinho, não faz essa interpretação.
Isso também é como a FIRA resolve rastreabilidade: quando o regulador pergunta por que um cliente foi ou não reportado, a resposta é uma consulta — não uma investigação retroativa em planilha e-mails e registros dispersos.
Da obrigação à vantagem estratégica
Compliance efetivo soma pessoas treinadas, processos claros, governança que define responsabilidades e apetite de risco, e tecnologia que escala controles sem substituir julgamento humano. Nesse contexto, o monitoramento contínuo deixa de ser apenas uma obrigação formal e passa a funcionar como instrumento de gestão — uma forma de produzir evidências, com dados, de que os controles de PLDFT estão de fato sendo praticados e funcionando. O teste não é ter um sistema de monitoramento. É esse sistema mudar como o negócio decide, todos os dias.
Aline Reginato
Cofundadora da FIRA
A FIRA é uma plataforma de inteligência para elevar a capacidade de mitigação de riscos das Instituições. Suas soluções unem dados, tecnologia e análises avançadas para atuar em PLD/FT, trade surveillance, due diligence, investigações e supervisão baseada em risco. Parceiro estratégico da RTM, suas soluções podem ser contratadas via nuvem RTM Cloud Services.


