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B3 destaca benefícios da agenda de redução do ciclo de liquidação de ações para D+1
PorRTM

Em fevereiro de 2028, as instituições financeiras que atuam no mercado de capitais deverão operar seus ciclos de liquidação de ações em D+1. A redução do prazo de D+2 para D+1 representa mais um marco para o setor, que vem acompanhando o movimento de mercados internacionais, como dos Estados Unidos e de países da Europa.  

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Em entrevista ao Conexão RTM, Morena Carvalho, diretora de operações da B3, detalha como surgiu a iniciativa de migração do ciclo de liquidação, as etapas previstas até a conclusão do processo e os benefícios esperados para participantes e clientes. Além disso, a executiva destaca o papel da tecnologia na transformação de procedimentos manuais – ainda enraizados em algumas instituições – em fluxos de informações mais ágeis e dinâmicos, alinhados ao novo ciclo.  

Por que a redução do ciclo de liquidação de ações de D+2 para D+1 se tornou uma prioridade para a B3 neste momento?  

R: Esse projeto começou a ser explorado dentro da B3 no início de 2023 e reverberou fortemente. O Brasil foi provocado pelos órgãos reguladores internacionais no âmbito de melhores práticas para o mercado de capitais, já que, na metade de 2024, Estados Unidos, Canadá e México encurtaram seus ciclos de liquidação de ações de D+2 para D+1. Isso fomentou o debate no mundo inteiro.  

Eu gosto de deixar claro que esta é uma agenda do mercado, não da B3. A B3, neste caso, atua como uma infraestrutura central com objetivo de facilitar e coordenar esses esforços, porque sabemos que uma redução de ciclo de liquidação desse tamanho é um grande avanço para o nosso ecossistema financeiro.  

O mercado precisa ser ouvido. A gente precisa entender quais são as principais implicações para todos os participantes. É um trabalho colaborativo.  

E como foi o processo de criação do projeto?  

R: A primeira fase do projeto começou com a coordenação da B3, auxiliando e fomentando o mapeamento de impactos operacionais e de negócios do mercado, ali entre 2023 e 2024, através das nossas câmaras consultivas. Começamos a levantar com o mercado todas as implicações e, em setembro de 2024, lançamos um whitepaper sobre oportunidades e desafios para a migração do mercado brasileiro de D+2 para D+1. Foi um levantamento muito grande feito com a indústria nas câmaras.  

Ao longo de 2025, trabalhamos pesado construindo um modelo de trabalho de projeto, levando em consideração a governança e quem seriam os tomadores de decisão do mercado brasileiro. A partir daí, construímos o comitê da indústria, um grupo multidisciplinar e formado por representantes de instituições variadas, com atuação em diversos segmentos, para as decisões relacionadas à migração de D+2 para D+1.  

Novamente, ressaltamos que a B3 é parte desse comitê, mas ele é formado por diversos participantes relevantes do mercado brasileiro. Nesse âmbito, aprovamos os entregáveis, a governança, os próximos passos, e fazemos interações com reguladores.  

Além disso, auxiliamos os grupos de trabalho de temas estratégicos – chamados de workstreams – em debates sobre questões operacionais e processuais. Os workstreams propõem e definem soluções para o comitê da indústria, que analisa e, em seguida, prepara um plano de trabalho.  

Então, no ano passado (2025), trabalhamos na definição de quando ocorrerá a migração de D+2 para D+1, que ficou marcada para fevereiro de 2028. Ao longo dos últimos meses, os workstreams debateram temas estratégicos para uma migração bem-sucedida, como empréstimos de ativos, ofertas, alocação de investidor não residente, câmbio, dentre outros. E uma das metas é que, até o final deste ano, o comitê da indústria lance um plano de migração para o mercado brasileiro. Desta forma, em 2027, todas as instituições financeiras estarão trabalhando para executar o que for preciso. 

Quais benefícios vocês observaram na migração de D+2 para D+1 realizada em outros mercados, como dos Estados Unidos, que poderão ser sentidos também aqui no Brasil? 

R: O modelo americano e o modelo brasileiro são bem diferentes em termos estruturais. A principal diferença é que, nos Estados Unidos, não é necessário identificar o beneficiário final em operações do mercado. Ou seja, se você compra uma unidade de ação de uma empresa na corretora, a instituição não precisa identificar quem os investidores envolvidos no trade. Tudo fica registrado com a identificação interna da corretora. Aqui no Brasil, as corretoras têm obrigação de identificar quem são os envolvidos na operação por meio das plataformas até o final do dia.  

Então, lá nos Estados Unidos, quando tinha um ciclo de liquidação de dois dias, caso houvesse algum problema no momento da liquidação, demoraria até dois dias para o cliente saber. Nesse sentido, houve um ganho muito significativo de risco. No Brasil, essa questão já é mitigada pelo fato de ser obrigatória a identificação diária dos donos das posições. Mas também teremos um ganho de otimização da margem. Além disso, teremos uma liquidez maior no mercado e passaremos a ser mais competitivos ao nos igualarmos aos mercados internacionais, que já estão operando em um ciclo de liquidação reduzido. 

Para conseguirmos colocar em prática essa redução do ciclo, teremos que investir em processos operacionais melhores e ferramentas tecnológicas, o que irá gerar um ganho de eficiência. Resumindo, a mitigação do risco, o aumento da liquidez no mercado e o ganho na eficiência serão os principais benefícios sentidos.  

Como o mercado vai precisar se preparar em termos de tecnologia para essa redução do ciclo de liquidação? Quais impactos e desafios serão sentidos?  

R: Hoje, ainda vemos muitos processos sendo realizados de forma manual. Então, há muita troca de e-mail e troca de informações via planilhas. A indústria vem melhorando cada vez mais nesse sentido, mas ainda há espaço para evoluir.  

Em conversas nos workstreams, percebemos que há procedimentos básicos em relação aos trades que podem ser aperfeiçoados. Tem o gestor que opera o fundo, o administrador que pode ser um terceiro, assim como o controlador e o custodiante. E é preciso “casar” toda esta troca de informação de uma forma otimizada.  

Às vezes é preciso se desafiar. Tem coisas que achamos que é eficiente porque realizamos da mesma forma há muito tempo, porém pode ter uma maneira melhor de fazer. Por isso, podemos pensar em conjunto, o mercado como um todo, fora da caixa. 

Já tivemos a transição de D+3 para D+2 em 2019. Quais aprendizados deste período serão levados para a migração de agora?  

R: Esse é um grande trabalho em grupo novamente. Nessa experiência de 2019, aprendemos que juntos somos mais fortes, conseguimos alavancar nossas atividades com simplicidade e objetividade. A organização é fundamental para conseguirmos realizar essa transição.  

Apesar de termos tido muitos aprendizados e ganhos em 2019, quanto mais a gente comprime a janela de liquidação, maiores são os desafios. Naquela época, sabíamos que ia ser duro, mas o mercado também sabia que havia uma “gordura”, um delay nas informações. De D+2 para D+1 é bem mais ousado, então precisamos ser mais “pé no chão”, disruptivo e inovador para trazer soluções que realmente movam o ponteiro e façam a diferença.  

Como essa modernização no ciclo de liquidação se relaciona com outros processos de transformação digital do mercado? Por exemplo, o Pix?  

R: Acho que a tecnologia como ferramenta junto de uma visão mais ampla, moderna e inovadora é o que fará essa migração de redução do ciclo de liquidação acontecer. Então, para mim, está 100% alinhado com a modernização do mercado atual.  

Por fim, qual sua mensagem final para o mercado sobre este projeto?  

R: Quero ressaltar que é importante que todo mundo do mercado se aproxime da discussão, que olhe seus processos e pense “e se daqui a algum tempo, eu precisar transformar o que eu faço em D+1 para D0, como será?”. É esse o desafio que temos. E a B3 está super proativa e atuante nessa agenda. Estamos à disposição para conversar.  

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