A evolução da inteligência artificial, os novos desafios de segurança digital e a transformação da relação entre bancos e clientes estiveram entre os principais assuntos do Febraban Tech 2026. Realizado entre 24 e 26 de agosto, em São Paulo, o evento reuniu 70 mil visitantes e mais de 600 palestrantes para discutir os caminhos da inovação no setor financeiro.
Em diferentes momentos da programação, uma mesma questão apareceu sob perspectivas distintas: à medida que a tecnologia ganha mais autonomia, aumenta também a necessidade de decisões estratégicas, estruturas de segurança e participação humana capazes de orientar seu uso.
A inteligência artificial já deixou de ser apenas uma aposta de futuro. Ela avança em aplicações voltadas à produtividade, experiência do cliente e automação, ao mesmo tempo em que exige novas formas de governança, infraestrutura e gestão de riscos. Esse cenário ficou evidente em algumas das principais palestras e mesas de debate da edição.
Segurança digital começa na forma como as pessoas interagem com a tecnologia

Em sua participação no evento, Radia Perlman, uma das principais referências mundiais na ciência da computação, chamou atenção para uma questão que vai além de protocolos, sistemas e mecanismos de proteção: a segurança precisa considerar o comportamento humano.
A especialista mostrou que soluções tecnológicas sofisticadas podem perder efetividade quando as pessoas não conseguem compreender, utilizar ou seguir adequadamente os recursos. Para ela, responsabilizar o usuário por falhas de segurança não resolve o problema. É necessário desenvolver sistemas mais fáceis de utilizar e considerar, desde sua concepção, a maneira como as pessoas realmente se comportam.
A discussão também trouxe para o radar desafios de longo prazo, como a preparação para os impactos da computação quântica sobre mecanismos criptográficos. A mensagem central é que segurança digital não deve ser tratada apenas como uma camada adicional da tecnologia, mas como parte da arquitetura e da experiência de uso.
Cliente ganha peso nas decisões sobre a evolução dos bancos
A transformação tecnológica também foi tema do painel que reuniu executivos de tecnologia de Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil, Santander e Caixa. A discussão mostrou uma mudança importante na lógica de priorização das iniciativas digitais: não é só acompanhar as tendências tecnológicas. As instituições precisam entender quais mudanças efetivamente respondem às necessidades dos clientes.
As interações nos canais digitais passaram a gerar informações importantes para orientar produtos, serviços e experiências. Ao mesmo tempo, a expansão dos agentes de inteligência artificial começa a modificar a própria relação entre clientes e instituições, criando questões sobre confiança, autorização e responsabilidade.
Nesse cenário, tecnologia e negócio precisam atuar de forma cada vez mais integrada. A infraestrutura continua sendo fundamental, mas a capacidade de transformar recursos tecnológicos em experiências mais simples, relevantes e seguras passa a ser um dos principais critérios para definir prioridades.
IA exige adaptação contínua e uma nova forma de pensar tecnologia

John Maeda, referência internacional em design, tecnologia e inovação, levou ao palco uma reflexão sobre a velocidade das mudanças provocadas pela inteligência artificial e o impacto delas sobre profissionais e organizações.
Ao demonstrar, na prática, como ferramentas de IA podem ser utilizadas para resolver problemas concretos, Maeda reforçou que a tecnologia está avançando em um ritmo que exige aprendizado constante. Para acompanhar esse movimento, empresas e líderes precisam desenvolver capacidade de adaptação, experimentar novas possibilidades e compreender melhor como as máquinas funcionam.
A discussão também aproximou tecnologia e liderança. Em um ambiente de transformação acelerada, resiliência, simplicidade e disposição para aprender com erros ganham importância. A conclusão é que dominar novas ferramentas é apenas parte do desafio: é preciso desenvolver a capacidade humana de interpretar, questionar e aplicar seus resultados de maneira adequada.
Produtividade com IA depende de confiança, controles e responsabilidade
Outro ponto recorrente no evento foi a passagem da experimentação para uma etapa de aplicação mais estruturada da inteligência artificial. Para os líderes do setor financeiro, a tecnologia já apresenta resultados concretos em produtividade, eficiência operacional, atendimento e personalização.
A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 aponta que os bancos devem investir cerca de R$ 3 bilhões em IA, analytics e big data neste ano. O avanço, porém, depende de bases tecnológicas e de dados preparadas para suportar aplicações mais sofisticadas.
A abertura do evento reuniu os presidentes dos principais bancos do país: Milton Maluhy Filho, CEO do Itaú Unibanco; Marcelo Noronha, CEO do Bradesco; Carlos Vieira, presidente da Caixa; Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual; Gilson Finkelsztain, CEO do Santander Brasil; e Livia Chanes, CEO Latam do Nubank. Eles destacaram que o potencial da IA precisa caminhar junto com segurança, ética e mecanismos de validação. O desafio passa a ser menos sobre adotar a tecnologia e mais sobre conseguir gerar valor com ela de forma sustentável e responsável.
Esse equilíbrio se torna ainda mais importante à medida que agentes de IA passam a executar tarefas e participar de decisões. Quanto maior o grau de autonomia dos sistemas, mais claras precisam ser as regras sobre limites de atuação, acompanhamento e responsabilidade.
Um novo equilíbrio entre tecnologia e protagonismo humano
As discussões do Febraban Tech 2026 mostram que a próxima etapa da transformação digital do setor financeiro não será definida apenas pela velocidade de adoção de novas tecnologias.
IA, dados, cloud, automação e novas arquiteturas ampliam as possibilidades para instituições financeiras, mas sua aplicação depende de infraestrutura adequada, segurança, governança e, principalmente, capacidade humana para definir objetivos e tomar decisões.
O grande desafio passa a ser encontrar o equilíbrio entre autonomia tecnológica e responsabilidade. Em outras palavras, não basta construir sistemas capazes de fazer mais: é preciso definir o que eles devem fazer, dentro de quais limites e com qual propósito.
E essa combinação entre inovação e liderança humana deve continuar pautando a evolução do mercado financeiro nos próximos anos.


